6. GERAL 1.8.12

1. GENTE
2. VIDA DIGITAL  UM MILHO DE FS
3. OLIMPADA 2012  ABERTURA  O MUNDO SOBRE OS OMBROS DE LONDRES
4. OLIMPADA 2012  FUTEBOL  ENTRE O OURO E O PESADELO
5. OLIMPADA 2012  FUTEBOL  PEQUENAS NOTVEIS
6. OLIMPADA 2012  TORRE DE LONDRES
7. OLIMPADA 2012  COMPORTAMENTO  A PRIMAVERA MUULMANA
8. OLIMPADA 2012  DESEMPENHO  UM SONHO CHINS
9. OLIMPADA 2012  PERFIL  A CHEF OLMPICA
10. NEGCIOS  DIVIDIR PARA MULTIPLICAR
11. EDUCAO  PASSA RASPANDO
12. DIETA  AS CHIAS DE CHARME
13. TECNOLOGIA  O PEQUENO DESAFIA O GRANDO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni

ELES NO QUERIAM SANGUE?
Trair o parceiro, ser flagrado e ainda emitir uma nota confirmando o episdio j  suficientemente complicado. Vira um drama global quando envolve o casal de atores KRISTEN STEWART, 22, e ROBERT PATTINSON, 26, que so para as adolescentes o equivalente a Angelina Jolie e Brad Pitt para as mais crescidas: uma imagem de sobre-humana perfeio. No caso, literal, por incorporarem os jovens vampiros da saga crepsculo, que deixam fs exangues no mundo todo com seu duplo romance, o da vida real e o da fico. Muitas meninas ainda se recusam a acreditar que Kristen foi fotografada aos beijos com RUPERT SANDERS (na foto abaixo), 41, seu diretor no filme Branca de Neve e o caador. At o desastrado comunicado oficial de Kristen, a atriz mais bem paga do momento, foi posto em dvida. Nele, Kristen lamenta uma vacilao de momento que tanto mal causou  pessoa a quem mais ama. Pattinson, claro. Sanders, que  casado com a atriz que faz a me de Kristen no filme, tambm passou atestado de traio: Estou abalado com a dor que causei. Minha linda mulher e meus filhos queridos so tudo o que tenho. Digno e calado, Pattinson saiu de casa.

NUDEZ TOTAL, MAS NA NOVELA
A dana dos leques, a dana dos vus, a dana dos espectadores embasbacados: BRUNA LINZMEYER, de 19 anos, domina os momentos de nudez artstica entre as muitas e deslumbrantes despidas de Gabriela. Seus pais apoiam as transgresses cnicas. Quando acaba o captulo, minha me manda torpedo dizendo que os dois acharam lindo, conta ela. Seria impossvel a bela Bruna fazer feio, mas, para ressaltar os dotes da arrivista Anabela, a atriz faz aulas de dana trs vezes por semana. Bruna tem de treinar sem roupa. No Projac, no tem essa privacidade, diz Regina Miranda, coregrafa da novela. Atualmente, as duas ensaiam o novo e secreto nmero da personagem. Preparem-se, coronis.

UMA MULHER MUITO  FRENTE DE SEU TEMPLO
A modelo e atriz SHERLYN CHOPRA, 28, no poderia estar mais orgulhosa de si mesma. Sou a primeira indiana a posar para a Playboy, e ningum tira essa conquista de mim, diz Sherlyn (prenome original: Mona). Era algo que ela queria tanto que ligou diretamente para a revista  proibida na ndia , oferecendo-se para as fotos. Depois,  claro, de dar uma mexidinha no visual: Comecei com lentes de contato, em seguida coloquei silicone, uma coisa levou a outra e uma incrvel transformao ocorreu. Como era esperado, as fotos, que s saem em novembro, esto gerando protestos ferozes na pudica ndia, onde Kama Sutra  s no templo e olhem l. Feliz por tanta repercusso, Sherlyn j pensa at no prximo passo de sua escalada para o sucesso: ser atriz de filme porn.

OS IRMOS METRALHA 
Ver uma menina de 14 anos como PARIS JACKSON ser agredida pela tia  repugnante, mas a coisa fica pior ainda quando envolve a famlia inteira. Loucos para rapar os 500 milhes de dlares da herana de Michael Jackson, seus irmos enganaram a nica pessoa em quem o cantor confiava, a me, Katherine, a quem entregou o futuro dos trs filhos. Quando a av sumiu de casa, Paris brigou pelo Twitter com a tia Janet. Ela e dois irmos tentaram enfiar os meninos em duas vans. Uma cmera gravou o momento em que Janet agride a sobrinha por tentar usar o celular. Um primo, TJ Jackson, tambm presente, socou os tios e acabou ficando com a guarda temporria dos meninos. Explicao de um tio-bandido, Randy: Janet  da escola tradicional e acha que as crianas precisam ouvi-la.

RAPAZINHO BATUTA
Como  possvel um menino de 20 anos j ser maestro de orquestra sinfnica? Gasto quase tudo o que ganho em partituras e decoro as peas. S de Beethoven, sei nove de cor. E viro noites estudando a vida de compositores, enumera YURI AZEVEDO, regente de uma orquestra de jovens em Salvador. Somada,  claro, a um talento nato, a dedicao de Yuri rendeu-lhe o maior prmio do Festival de Inverno de Campos do Jordo: uma bolsa em Baltimore, nos Estados Unidos, para estudar regncia. Na noite da premiao, Yuri foi convidado a reger a Orquestra Sinfnica de So Paulo (Osesp). Foi tranquilo. Sei a pea, Batuque, de cabea. Nem precisei ler, orgulha-se. O difcil, para ele,  sair na balada. Fico tentando entender as notas musicais e termino confuso.


2. VIDA DIGITAL  UM MILHO DE FS
Com a marca, VEJA consolida sua posio de destaque entre os veculos de informao mais influentes no Facebook, a maior rede social do planeta.
RAFAEL SBARAI

     VEJA comemorou na semana passada um novo marco nas redes sociais: sua pgina no Facebook atingiu o nmero de 1 milho de fs, consolidando a posio de destaque entre as publicaes mais respeitadas e influentes do planeta. O contato dirio estabelecido com os usurios do servio  sem o uso de robs digitais para disparar respostas automticas  ajudou a fazer de VEJA uma das maiores referncias no Brasil e no mundo,  frente de veculos internacionais como as revistas Time, dos Estados Unidos, e Der Spiegel, da Alemanha.
     Os fs de VEJA no Facebook deixaram mais de 370.000 comentrios desde que a pgina foi criada, em junho de 2009. Nesse perodo, os fs da revista chancelaram os contedos postados diariamente com 1,4 milho de Curti, clicando no boto com o polegar para cima. S no ltimo ms, VEJA conquistou 100.000 novos fs. Esses nmeros refletem uma empatia rara de obter por um ttulo impresso tradicional no universo digital mesmo que secundado por uma presena marcante de VEJA.com, que tem 7 milhes de visitantes nicos por ms. Com mais de 50 milhes de brasileiros cadastrados e quase 1 bilho de usurios em todo o mundo, o Facebook criou um ecossistema digital em que as pessoas podem se manifestar e exercitar livremente a crtica, revelando suas preferncias sem a menor influncia de impulsos artificiais. O sucesso de VEJA nesse ambiente altamente exigente e rico em atraes  fruto da constante alimentao das pginas de VEJA.com com contedos exclusivos, relevantes, e de um time de colunistas que analisam, hierarquizam e contextualizam informaes e, principalmente, no deixam ningum indiferente.
     A presena marcante de VEJA em outras redes sociais se deve aos mesmos princpios que fazem o sucesso da marca no Facebook. No microblog Twitter  acessado mais de 10 milhes de vezes por brasileiros em junho  VEJA est muito prximo de atingir a fenomenal marca de 2 milhes de seguidores, o que reflete a liderana da revista entre as publicaes nacionais. Em maio de 2010, VEJA chegou a ocupar a posio do perfil mais influente do mundo no Twitter, segundo o Twitalyzer, que mede o desempenho a partir de quatro critrios: influncia, impacto, generosidade e relevncia. Em dezembro do mesmo ano, outra pesquisa, produzida pelo youPIX, responsvel por realizar o maior evento sobre cultura digital no Brasil, elegeu VEJA a mais influente conta do Twitter do Brasil. A mesma tendncia est se verificando no Google+, rede social criada pelo gigante de buscas em junho de 2011, em que VEJA  a publicao brasileira de maior presena, com mais de 300.000 amigos, em sete meses. Fs no Facebook, seguidores no Twitter e amigos no Google+, eles formam nossa famlia ampliada digitalmente e comprometida com a qualidade e a confiabilidade da informao.

O nmero de fs de VEJA no Facebook em comparao com o de publicaes internacionais...
VEJA 1 milho
TIME (Estados Unidos) 552.000
THE WALL DTREET JOURNAL (Estados Unidos) 534.000
Theguardian (Inglaterra) 421.000
FINANCIAL TIME (Inglaterra) 412.000
The Washington Post (Estados Unidos) 411.000
EL PAS (Espanha) 146.000
DER SPEGEL (Alemanha) 31.000

...e sua evoluo
JUN/09 5
JAN/10 3000
FEV/11 85.000
NOV/11 388.000
ABR/12 711.000
JUL/12 1 milho
Dados obtidos at o dia 27 de julho

VEJA nas outras redes sociais
Twitter 1.930.000 seguidores
Google+ 303.000 amigos


3. OLIMPADA 2012  ABERTURA  O MUNDO SOBRE OS OMBROS DE LONDRES
Realizados pela terceira vez na capital da Inglaterra, os Jogos Olmpicos voltam para o lugar do mundo onde a beleza do esporte nasceu, cresceu e foi alimentada.
FBIO ALTMAN, DE LONDRES

     Apenas para confirmar todos os lugares-comuns, Londres amanheceu cinzenta na sexta-feira 27 de julho. s 8h12, as 13 toneladas do Big Ben, o mais famoso de todos os sinos, badalaram quarenta vezes durante trs minutos. Saiu de seu horrio habitual pela primeira vez desde 1952, no funeral de George VI, pai da rainha Elizabeth II. Era o incio de um dia memorvel que culminaria com o adesivo na na na na na na na na na do clssico beatle Hey Jude, na voz de sir Paul McCartney, entoado em coro por 80.000 vozes no Estdio Olmpico. Foi o empolgante desfecho de uma cerimnia inteligente e bonita, que comeou no idlio de um campo de ovelhas e terminou com a pira olmpica espetacularmente acesa no centro do gramado.
     Pense em algum esteretipo ingls, especialmente londrino, acrescente pitadas da autoindulgncia, e ele ter desfilado pelo estdio  noite. A Tempestade de Shakespeare, o Milton de William Blake, a rainha (em pessoa, evidentemente, depois de aparecer no telo numa divertida parceria com Bond, James Bond), a BBC, Peter Pan, Mary Poppins e Harry Potter. Houve citaes a Pink Floyd, Sid Vicious, The Clash, Rolling Stones, Queen e David Bowie. At o Mr. Bean deu as caras para atrapalhar a Sinfnica de Londres na execuo de carruagens de Fogo, depois de ela ter emocionado o pblico com as Variaes Enigma, de Elgar. O cineasta Danny Boyle (Transpotting e Quem Quer Ser um Milionrio?), diretor da festa, teve o cuidado de lembrar Tim Berners-Lee, o criador do www da internet. Do romantismo da era vitoriana de Charles Dickens, atravessando as duas grandes guerras, at chegar s novas tecnologias, as trs horas de apresentao serviram como uma aula de histria entremeada com os maiores atletas do mundo, como Usain Bolt e Maria Sharapova. E, ressalte-se, sem que nada tenha sido forado. Londres, no h dvida, e a velha Albion h sculos so pilares da cultura ocidental. Seu legado est entranhado na vida de cada um de ns, nos livros, no cinema, nas canes, nas medalhas.
     Discute-se, desde sempre, o que a Olimpada pode deixar para a cidade, numa Europa mergulhada na crise e amarrada  austeridade compulsria. Libras esterlinas, uma regio recuperada, estdios e ginsios ecologicamente corretos  a lista de benefcios hipotticos  longa. Mas nada supera aquilo que Londres deu ao mundo (alm da cultura e da histria  comida, no) e que agora volta para casa: o esporte. Os Jogos Olmpicos comearam na Grcia Antiga, evento reverenciado na Olimpada de 2004, em Atenas. Mas o anseio do homem de ir mais rpido, mais alto e mais forte nasceu ou foi alimentado na Inglaterra e seus vizinhos. O rol  vasto: futebol, tnis, atletismo, boxe, natao, hipismo. A beleza da Olimpada londrina  que os Jogos voltaram pela segunda vez para casa, depois de 1908 e 1948. Nos prximos dias, um arsenal de dramas e heris desfilar aos olhos do mundo. Como na letra de Hey Jude, as vitrias, mas tambm as derrotas, devem ser tratadas como se os atletas, sem carregar o mundo nos ombros, pudessem pegar uma msica triste para faz-la melhor.


4. OLIMPADA 2012  FUTEBOL  ENTRE O OURO E O PESADELO
A seleo brasileira tenta superar seus sucessivos fracassos olmpicos em mais uma busca pela medalha ainda inalcanada.
CARLOS MARANHO, DE CARDIFF

     Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos, Bebeto, Romrio e Dunga. Para voltar mais no tempo: Vav, Grson... Sem falar dos treinadores Zagallo e Vanderlei Luxemburgo. A lista de craques e tcnicos brasileiros estrelados poderia ir adiante. Todos eles tentaram e no conseguiram o que as demais selees que venceram a Copa do Mundo, do Uruguai  Espanha, alcanaram pelo menos uma vez: a medalha olmpica de ouro no futebol. A exceo  a Repblica Federal da Alemanha, embora a extinta Alemanha Oriental tenha sido laureada em 1976.
     Mais que um sonho, a obsesso virou quase um pesadelo. Foram muitos fracassos, e justamente por isso a presso  forte, admite Mano Menezes, comandante do jovem esquadro que, nos gramados britnicos, batalha para ganhar e no apenas competir. A sucesso de derrotas parece inexplicvel para um pas cinco vezes campeo mundial e com sucessivas geraes de talentos, alguns deles incomparveis, a comear por Pel e Garrincha, que alis no foram a nenhuma Olimpada. (Pel j opinou que a razo  essa mesma.)
     No retrospecto, o Brasil conta com duas medalhas de prata e duas de bronze. Dentro das glrias do futebol nacional, isso no representa praticamente nada.  como se os Estados Unidos, incontestveis reis da cesta, jamais tivessem triunfado no basquete olmpico (nas suas dezessete participaes, ganharam treze). Na quinta-feira passada, Neymar e seus companheiros reiniciaram essa saga que nunca chegou a um final feliz. Por alguns momentos, na estreia contra o Egito, que no tem nenhuma tradio no universo da bola, ficou a impresso de que dariam uma goleada, iriam adquirir a necessria confiana e seguiriam como os principais candidatos rumo ao ttulo. Em um breve intervalo de catorze minutos, abriram 3 a 0 com facilidade. Mas na segunda etapa a seleo relaxou, tomou dois gols e por pouco a vitria no lhe escapa.
     Houve,  certo, estreias piores. Em 1996, o goleiro Dida e o zagueiro Aldair trombaram no ar e o Japo fez o nico gol do jogo. Era o prenncio da tragdia maior que viria poucos dias aps. Com os goleadores Ronaldo Fenmeno e Bebeto em plena forma, o Brasil permitiu que a Nigria empatasse em cima da hora uma partida que perdia por 3 a 1, fosse para a prorrogao e ganhasse na morte sbita na poca, um gol no tempo extra valia a vitria. Passados quatro anos, com mais uma seleo forte em que se destacavam o zagueiro Lcio e o meia Ronaldinho Gacho, o Brasil caiu diante de outro rival africano, Camares, que em boa parte da partida teve dois jogadores a menos. O mais recente vexame ocorreu na Olimpada passada, numa noite sufocante em Pequim: 3 a 0 para a Argentina de Messi e Riquelme. Nas trs ocasies, a seleo era vista como favorita  e acreditou tanto nisso que, no fim, deu no que deu.
     Conhecemos bem cada uma dessas histrias e trabalhamos duro para que no nos acontea a mesma coisa, diz o meia Oscar, que tinha 4 anos quando o Brasil perdeu para o Japo e a Nigria. Sinceramente, no d para explicar por que no temos at hoje a medalha de ouro. No passado, o motivo para os insucessos era justificado. Em uma hipocrisia que r perdurou at 1980, os atletas profissionais no podiam participar dos Jogos, que o Comit Olmpico Internacional (COI) considerava destinados a um amadorismo de fachada. Dentro desse farisasmo, as equipes de futebol teriam de ser formadas por amadores, categoria em que foram includos os jogadores dos antigos pases socialistas europeus, entre eles a fabulosa Hungria do meia Puskas, o Major Galopante, e a Unio Sovitica do goleiro Yashin, o Aranha Negra. Desse modo, de 1952 a 1980, com seus melhores futebolistas, eles venciam sem dificuldade as equipes no profissionalizadas que os demais pases eram obrigados a escalar. Antes mesmo de o comunismo acabar, a nova realidade do esporte levou o COI a mudar seus critrios. Desde 1996, cada participante pode inscrever quinze profissionais com at 23 anos e trs sem limite de idade.
     O futebol  o nico dos 26 esportes olmpicos com tal tipo de regra, adotada para que o torneio no faa sombra  Copa do Mundo. Na prtica, ele  um corpo estranho da Olimpada. Por ser relativamente longa, a competio comea s vsperas da cerimnia de abertura e as partidas so em sua maioria realizadas fora da cidade-sede. Assim, o Brasil, que estreou em Cardiff e jogar em Manchester e Newcastle, ir para o reconstrudo estdio Wembley de Londres apenas se, no prximo dia 11, classificar-se para buscar novamente a to perseguida medalha dourada e, quem sabe, enfim, lev-la para casa.


5. OLIMPADA 2012  FUTEBOL  PEQUENAS NOTVEIS
     So quase todas pequenas (dez, em um grupo de dezoito, tm menos de 1,70 metro). Sem estrelismo, ficam visivelmente felizes, e no incomodadas, como acontece com muitos astros esportivos, quando reconhecidas na rua. Vaidosas, demoram para sair do vestirio e aparecem bem penteadas, com maquiagem correta e perfume discreto. Antes vtimas de preconceito por praticar um esporte considerado masculino, as jogadoras da seleo feminina de futebol tornaram-se, dentro e fora de campo, a primeira boa surpresa olmpica brasileira.
     Na verdade, seu feito inicial  uma goleada de 5 a 0 na quarta-feira contra Camares, marcador retumbante em qualquer estreia  teve como cenrio a cidade de Cardiff, capital do Pas de Gales, a cerca de 250 quilmetros da sede dos Jogos.  uma terra do rgbi, cujos jogos so disputados no imponente Millennium Stadium, devidamente adaptado para o futebol na Olimpada. Nesse primo pobre da Gr-Bretanha, h um machismo esportivo indisfarvel. Nas lojas, fazem sucesso as camisetas em que aparecem aqueles smbolos que se veem nos banheiros para indicar a entrada dos homens e das mulheres. Embaixo do primeiro, h a palavra rgbi. Do segundo, futebol. 
     Assim, de certa forma, elas puderam se sentir em casa. O preconceito no foi totalmente superado, mas no  como no passado, compara a atacante paulista Francielle (1,61 metro), autora do primeiro gol. As jogadoras tambm se sentem mais bem tratadas pela Confederao Brasileira de Futebol (CBF), que decidiu incluir na delegao desde uma psicloga at um cozinheiro exclusivo. Eles nos do mesmo o que no pedimos, conta a atacante alagoana Marta (1,61 metro). Nas competies anteriores, pagvamos nossas ligaes particulares. Aqui, temos chip de graa para o celular. 
     Como a seleo masculina, as moas continuam em busca da primeira medalha de ouro, perdida em circunstncias dramticas nas finais de 2004 e 2008. O time est mais experiente e deixamos os traumas para trs, afirma a meio-campista baiana Formiga (1,62 metro). Para minha gerao, esta  a ltima chance, acrescenta ela, que tem 34 anos e participa de sua quinta Olimpada consecutiva. No queremos desperdiar esta oportunidade final.


6. OLIMPADA 2012  TORRE DE LONDRES
MODA
O PDIO DO ESTILO
O bonito... 
JAMAICA
Estilista: Cedella Marley
A filha de Bob, o gnio do reggae, criou uniformes para a turma de Usain Boil com a grife Puma. Eles so inspirados na figura do pai e nas roupas militares que ele costumava usar.

GR-BRETANHA
Estilista: Stella McCartney
A filha de Paul, contratada da Adidas, desenhou uma coleo que j pode ser encontrada nas grandes lojas londrinas.
O mrito: apesar de vistosa, d para usar sem medo.

...e o bizarro ESPANHA
Estilista: Bosco (uma empresa russa)
A feiura virou piada no Twitter. Escreveu o jogador de hquei Alex Fbregas: Nosso uniforme olmpico, sem adjetivos.... O ex-tenista Carlos Moy se solidarizou com os colegas: Horrvel.

SEXO
150.000 preservativos foram distribudos aos atletas na Vila Olmpica londrina. A mdia  de quinze unidades para cada esportista, um aumento de 50% em relao aos Jogos de Pequim. Diz Hope Solo, goleira da seleo americana de futebol: Em 2008, levei uma celebridade para o meu quarto e ningum ficou sabendo.

TUITADA DA SEMANA
Com tantos africanos na Grcia, pelo menos os mosquitos do Nilo comero comida caseira!  Comentrio racista da atleta de salto triplo VOULA PAPACHRISTOU, que acabou sendo cortada pelo Comit Olmpico Grego.

ECONOMIA
VENDE-SE FELICIDADE
Um conhecido estudo dos economistas Stefan Szymanski, da Universidade de Michigan, e Georgios Kavetsos, da Cass Business School, de Londres, desmonta a ideia de que Olimpadas e Copas fazem crescer o PIB dos pases-sede. Ganha-se felicidade durante um ms, se tanto, diz Szymanski. O que entra aqui sai l  e as contas mal fecham.
Em bilhes de dlares
Custo inicial da organizao de Londres 2012: 3,8
Custo final da organizao de Londres 2012: 17,2
Estimativa de quanto os Jogos devem gerar de receita nos prximos quatro anos: 20

METEOROLOGIA
 hora de invocar o deus R, Apolo, o rei Sol, seja l quem for. Acaricie o cume das montanhas com seu olhar soberano, evapore as nuvens e d a todos ns uma pausa. - Do prefeito fanfarro Boris Johnson, ao ironizar a preocupao global com a chuva em Londres, algo to atvico quanto a troca da guarda da rainha, mas incontrolvel como o prncipe Harry.

CINCIA
SOU MULHER, SIM SENHORES!
Poucos atletas chamaro tanta ateno em Londres quanto a meio-fundista sul-africana Caster Semenya, de 21 anos, campe mundial dos 800 metros em 2009 e porta-bandeira de seu pas na cerimnia de abertura. Semenya passou pela desagradvel experincia de ter de provar, em torneios internacionais recentes, que  mulher, dadas sua aparncia e fora fsica, produzidas pelo excesso do hormnio testosterona.
Como evoluiu a medicina destinada a escrutar o sexo dos campees
DESFILE SEM ROUPA 
At os anos 60: Esportistas apareciam nus diante de juzes e mdicos do Comit Olmpico.
CROMOSSOMOS
A partir da Olimpada de 1968 Comearam os testes de constituio gentica para identificar o XY em homens e o XX em mulheres.
HORMNIOS
Modalidade atual
Exames rigorosos medem a distribuio hormonal dos atletas. O problema: quem selecionar para averiguao?
Fontes: Comit Olmpico Internacional, American Journal of Bioethics


7. OLIMPADA 2012  COMPORTAMENTO  A PRIMAVERA MUULMANA
Pela primeira vez, todos os pases tero mulheres competindo numa Olimpada   o resultado de um abrandamento das restries impostas por naes fundamentalistas islmicas  participao de atletas femininas.

     O brasileiro Joaquim Cruz, um dos maiores atletas de todos os tempos, medalha de ouro nos 800 metros da Olimpada de 1984 e prata em 1988, far histria pela terceira vez em Londres. A VEJA, Joaquim faz uma revelao que apenas a partir do incio das provas de atletismo, em 3 de agosto, ser anunciada mundialmente. Joaquim  o treinador da atleta saudita Sarah Attar, de 19 anos, maratonista por formao, mas que competir nos 800 metros. Ela e a judoca Wodjan Ali Seraj Abdulrabim representam um ineditismo: pela primeira vez a Arbia Saudita, uma monarquia muulmana que restringe vergonhosamente o cotidiano feminino, levar mulheres a uma Olimpada. D-se, com a ida da dupla a Londres, outra primazia  os Jogos de 2012 sero os primeiros nos quais todos os pases tero mulheres competindo.
     O aumento da ocupao feminina  resultado de um abrandamento  ainda muito discreto,  verdade  das restries  participao de mulheres que eram promovidas por alguns pases muulmanos. Alm da Arbia Saudita, os Emirados rabes Unidos e o Brunei tero mulheres competindo em Londres. Uma atiradora da Malsia  onde 60% dos habitantes professam o islamismo  disputar as provas de tiro grvida de oito meses. Na Vila Olmpica, Nur Suryani Mohamed Taibi circula com a cabea coberta, mas com o rosto livre. Ocorreu, recentemente, alguma liberalidade das normas do fundamentalismo islmico no modo como as atletas so autorizadas a competir. Sarah Attar  nascida nos Estados Unidos, moradora da Califrnia, filha de saudita, amante dos livros de Paulo Coelho   uma moa 100% americana no cotidiano. Em Londres, ter de se cobrir parcialmente. As poucas imagens dela divulgadas pelo Comit Olmpico Internacional geraram protestos na Arbia Saudita.
     As fotos de Sarah e de outras atletas muulmanas vestidas com hijabs esportivos sero divulgadas  exausto. Do ponto de vista ocidental, soaro estranhas, em evidente choque cultural, mas carregam um aspecto positivo. Para muitas jovens muulmanas, ver atletas com hijabs mais leves pode ser encorajador, disse a VEJA a antroploga Emma Tarlo, da Universidade de Londres, autora do livro Visibly Muslim: Fashion, Politics, Faith (Visivelmente Muulmano: Moda, Poltica, F). Elas percebero que seu credo religioso no  mais um impedimento para estar numa Olimpada.
FBIO ALTMAN, DE LONDRES


8. OLIMPADA 2012  DESEMPENHO  UM SONHO CHINS
Londres  apenas um rito de passagem para o Rio em 2016, quando o objetivo  chegar a trinta medalhas. Um salto que nem mesmo a China conseguiu dar.
ALEXANDRE SALVADOR, DE LONDRES

     A delegao brasileira vive uma condio especial na Olimpada de Londres. Atravessar as duas semanas de competio de olho em 2016. Evidentemente, do ponto de vista dos atletas, liderados pelo magnfico campeo olmpico e recordista mundial Cesar Cielo, os Jogos de 2012 mal comearam  para os dirigentes esportivos, no seria exagero dizer que j terminaram. O destino de todas as preocupaes e apostas  o Rio de Janeiro, daqui a quatro anos. Historicamente, os pases que sediam uma Olimpada conseguem um crescimento respeitvel no nmero de medalhas conquistadas na edio disputada dentro de casa. Em Pequim, h quatro anos, a China chegou a 100 medalhas, 51 delas de ouro. Nos Jogos anteriores, havia obtido 63 medalhas. O crescimento de uma edio para a outra foi de 59% (veja o quadro abaixo). O salto chins foi resultado de uma combinao de fatores essenciais para um pas se tornar uma potncia olmpica. Foram investidos 3 bilhes de dlares ao longo de quatro anos para a construo de instalaes esportivas, a contratao de treinadores estrangeiros e um imenso trabalho de base  algo que, na China,  uma certeza probabilstica de timos resultados. Tudo associado a uma antiga e bem-sucedida estratgia cubana: alimentar modalidades que entregam muitas medalhas, em vrias categorias, como as lutas e o levantamento de peso. Os esportes coletivos foram deixados em segundo plano.
     O Comit Olmpico Brasileiro (COB) tem um sonho chins em 2016. Para Londres, a ambio  pequena  estima-se alcanar as mesmas quinze medalhas de 2008 (trs douradas), apesar dos 2 bilhes de reais investidos, apesar de o dinheiro exclusivo para o esporte de alto rendimento ter crescido 48%, apesar do aluguel de um centro exclusivo de treinamento, o Crystal Palace, na zona sul londrina. A conceituada revista americana Sports Illustrated projeta em sua tradicional lista de previses pr-Olimpada um cenrio mais otimista: o Brasil levaria 23 medalhas ao todo, sendo oito delas no primeiro lugar do pdio. Mas o que interessa mesmo, insista-se, e ningum esconde,  sair grande do Rio de Janeiro. A meta  agressiva, desafiadora: dobrar o nmero, para trinta medalhas, em uma expanso de intimidar at os chineses. Londres no oferece grandes esperanas.
     E como o Brasil pretende alcanar esse objetivo ousado em 2016? O plano j est traado. No papel  sensato. A verba deve aumentar de 370 milhes de dlares para 700 milhes de dlares no chamado ciclo olmpico, que comea agora e termina dentro de quatro anos. Se cumprida a meta do COB  as tais trinta medalhas, a partir de agora o Santo Graal , o custo de cada uma ser de 23,3 milhes de dlares. Para o governo chins, uma medalha em Pequim sugou 30 milhes de dlares. Em 2000, nos Jogos de Sydney, os australianos conquistaram 58 medalhas, a 12 milhes de dlares a unidade. Dinheiro no basta, no consigo comprar um campeo olmpico, disse a VEJA Marcus Vinicius Freire, diretor executivo de esportes do COB.  preciso montar instituies, qualificar os treinadores, dar experincia aos atletas. A frmula  ter investimento contnuo para construir o sucesso olmpico. Em janeiro de 2009, quando assumiu o posto de chefe do esporte de alto rendimento brasileiro, Freire, um ex-jogador de vlei com formao no mercado financeiro, decidiu rodar o mundo com sua equipe para entender o comportamento de quem agiu de maneira certa. Visitou nove pases e fez uma primeira descoberta: para atingir o crescimento necessrio de medalhas, um crescimento que mantenha o padro,  crucial conquist-las em pelo menos treze modalidades, a mdia internacional. O Brasil costuma levar medalhas em alguns poucos esportes. Metade das 91 obtidas por atletas brasileiros se refere a trs modalidades: vela, vlei (quadra e praia) e jud. Para aumentar a presso, o COB ps o sarrafo l em cima, e estabeleceu o patamar de dezoito modalidades no pdio. As nove de sempre e outro tanto indito, capaz de faturar medalhas na Olimpada do Rio.
     Com a ajuda de um programa de computador utilizado no mercado financeiro, ferramenta que une estatstica e probabilidade, o critrio principal de distribuio de recursos  o nmero de jovens promessas nas categorias juvenis. O segundo critrio decisivo  o nmero de medalhas em jogo nas modalidades selecionadas, a exemplo do comportamento de Cuba, no passado, e da China, agora. Embora no divulgue os esportes selecionados, o COB confirma que a grande maioria  de modalidades individuais.  combinao matemtica, afirma Freire. A histria da modalidade e o potencial futuro contam, mas ns sabemos perfeitamente as reais chances de cada federao. Se eu tiver s 1 real para investir, vou pr apenas nos primeiros da lista. Uma das modalidades em que se apostam muitas fichas  o boxe. O Brasil tem uma gerao de jovens pugilistas que podem gerar frutos em 2016  a Sports Illustrated, alis, acredita que os boxeadores brasileiros podem levar trs medalhas para casa. Uma delas, de ouro, do meio-mdio ligeiro baiano Everton Lopes.
     Outro fator que pode contribuir para atingir o objetivo desenhado para os Jogos do Rio  a experincia internacional dos atletas. O COB levar para Londres, ao longo da Olimpada, dezesseis atletas no classificados para os jogos, de diversas modalidades. A delegao da Gr-Bretanha fez a mesma coisa em Pequim com seus atletas. A ideia, comprovadamente eficaz,  quebrar o nervosismo e o deslumbramento de uma estreia olmpica. As confederaes brasileiras tambm buscaram no exterior nomes de escol para a direo tcnica de modalidades como o basquete, o handebol e o salto com vara. O conjunto todo soa eficiente, mas a pergunta de 700 milhes de dlares s entregar respostas em 2016, ou depois. O futuro do esporte olmpico brasileiro tem trs caminhos possveis. Um muito bem-sucedido, como o da China, que parece no ter mais volta. Outro, equilibrado, da Austrlia, que no vai  Lua, mas tambm no fica apenas na Terra. E um terceiro, sinnimo de fracasso, o da Grcia. Em 2004, em Atenas, os gregos subiram dezesseis vezes no pdio. Quatro anos antes, tinham subido treze vezes. Em Pequim, porm, foram escassas quatro medalhas  e o legado olmpico de quem foi sede evaporou inapelavelmente. Espera-se que esse no seja o destino brasileiro.

O EFEITO CASA
Nas ltimas trs edies dos Jogos, o pas-sede tem melhorado seu desempenho em relao  edio anterior  e piorado na Olimpada subsequente (em nmero de medalhas)

O TIMO EXEMPLO
CHINA
Atenas 2004
32 ouro
17 prata
14 bronze
Total 63
Pequim 2008
51 ouro
21 prata
28 bronze
Total 100
Crescimento no total de medalhas em relao  Olimpada anterior: 59%
Londres 2012 (Previso da revista Sports Illustrated)
42 ouro
30 prata
25 bronze
Total 97

O BOM EXEMPLO
AUSTRLIA
Atlanta 1996
9 ouro
9 prata
23 bronze
Total 41
Sidney 2000
16 ouro
25 prata
17 bronze
Total 58
Crescimento no total de medalhas em relao  Olimpada anterior: 41%
Londres 2012 (Previso da revista Sports Illustrated)
Atenas 2004
17 ouro
16 prata
16 bronze
Total 49

O MAU EXEMPLO
GRCIA
Sydney 2000
4 ouro
6 prata
3 bronze
Total 13
Atenas 2004
6 ouro
6 prata
4 bronze
Total 16
Crescimento no total de medalhas em relao  Olimpada anterior: 23%
Pequim 2008
0 ouro
2 prata
1 bronze
Total 4

A OUSADA AMBIO BRASILEIRA
O plano do Comit Olmpico Brasileiro (COB)  dobrar a quantidade de medalhas nos Jogos do Rio
A estratgia do COB para 2016 tem dois pilares:
1- Aumentar o oramento para o esporte de alto rendimento de 370 para 700 milhes de dlares no ciclo olmpico (quatro anos)
2- Ampliar de 9 para 18 as modalidades que conquistam medalhas para o Brasil

Pequim 2008
3 ouro
4 prata
8 bronze
Total 15
Londres 2012 (Expectativa do COB)
3 ouro
prata + bronze = 15
Total 15
Rio 2016 (Expectativa do COB)
Ouro + prata + bronze = 30
Total 30
Crescimento no total de medalhas em relao  Olimpada anterior: 100%


9. OLIMPADA 2012  PERFIL  A CHEF OLMPICA
A cozinheira oficial da delegao brasileira em Londres defende a tese de que comida boa custa caro, critica os crticos e diz que, como no esporte, gastronomia  superar limites.
GABRIELE JIMENEZ

Ex-vendedora de cachorro-quente, ex-estudante de veterinria, a gacha Roberta Sudbrack, 44 anos, espanta-se quando um jovem bate  porta do restaurante que leva o seu nome, no Jardim Botnico, Zona Sul carioca, apresentando-se como chef. Chef  quem lidera uma cozinha. E vou logo avisando: no h nada de glamouroso nisso, diz Roberta, recm-alada ao panteo dos 100 melhores chefs do mundo e uma das oito mulheres do grupo. Ela aprendeu a tcnica culinria praticamente sozinha, sorvendo da bblia dos mestres Carme e Jol Robuchon. Nos anos 90, estava  frente de um jantar para a nata do tucanato em que se sentava  mesa o ento presidente, Fernando Henrique Cardoso. Logo receberia um convite para comandar a cozinha do Palcio da Alvorada, funo que exerceu entre 1999 e 2002 e que lhe trouxe traquejo, digamos, diplomtico  s o prncipe Charles pediu para banir do menu vinte ingredientes. Neste momento encarregada de cozinhar para os atletas brasileiros em Londres, Roberta resume:
Como no esporte, a cozinha envolve muitos obstculos, superao de limites e dor.

FALTAM MULHERES NO TOPO - O primeiro dos chefs-celebridade foi Carme, o grande cozinheiro do sculo XIX que servia a aristocracia francesa. Desde ento, perpetuou-se o reinado masculino na cozinha, que tem a ver com tradio, cultura, mas tambm com os pesados desafios fsicos que o ofcio impe. As vezes, uma panela de 60 litros de caldo precisa ser levada de um lugar para outro debaixo de uma sauna de 50 graus. At um homem precisa de ajuda para isso. E nada pode interferir no corte perfeito, incisivo, milimtrico em meio a um vaivm de gente num espao apertado. Sobreviver a essa rotina requer msculos, sim, mas tambm, e mais importante, tolerncia em altssimo grau e um componente de loucura mesmo.  isso que faz um bom chef  homem ou mulher  repetir de forma obsessiva a receita de um demi-glace, e s quando finalmente o molho alcana a consistncia exata o esprito se apazigua.

A INDIFERENA  FATAL - Podem at odiar o que esto comendo, s no me venham com a indiferena, que  o pior de todos os castigos para um chef. Fico observando o salo de dentro da cozinha e muitas vezes vejo coisas que me ferem. Depois de toda aquela orquestrao de panelas, com cada etapa do preparo do prato cronometrada para que ele seja servido na temperatura perfeita, imagine o que  perceber que o cliente no pega o garfo no momento mgico em que est diante de sua comida. Ele prefere sacar sua cmera de ltima gerao da bolsa e fotografar. Est a um dos modismos dos tempos atuais que eu mais detesto. Mas tambm no d para bancar a chef tirana e sair dizendo: Por favor, guarde essa cmera agora e sinta o aroma da minha comida. Gosto dos ritos da alta gastronomia, mas sou contra esse tipo de ortodoxia.

O MESTRE ASSADOR X A COZINHA MOLECULAR - A cozinha tecnolgica nos privou do aroma verdadeiro da comida e da simplicidade que eu prezo. Os aromas so artificiais, fazem parte do show. Mas claro que os chefs moleculares levaram  mesa outras sensaes e, fundamentalmente, a ideia de que refletir sobre o preparo da comida  essencial para aprimorar a tcnica. No d para se fechar  cincia nem ignorar os avanos tecnolgicos.  inegvel, por exemplo, que as mquinas de cozimento a vcuo trouxeram  carne uma textura incrvel, mas, neste caso, ainda prefiro permanecer  moda antiga. Preservo uma figura tpica das cozinhas do sculo XIX  o sujeito que passa at catorze horas por dia dedicado a um assado. Sabe aquela delicada crosta que fica no fundo da frma? Pois este  o fator humano que, ainda acredito, distingue uma comida.

O QUE  BOM CUSTA CARO - No Brasil, as piores distores de preo ocorrem na mdia gastronomia, e no na alta. Claro que eu sei que cobro caro, mas tem uma razo de ser. Se eu compro o tomate do senhor Jos, um produtor que faz deste um ofcio artesanal, chegando a exemplares perfeitamente simtricos e suculentos, pago o dobro. E isso encarece, mas tambm aprimora a comida. O brasileiro  que j tem um paladar bem evoludo graas  diversidade de sabores a que est acostumado  ainda precisa entender essas sutilezas e saber discernir os restaurantes que frequenta. Do ponto de vista empresarial, eu e meus colegas sabemos que, para ganhar dinheiro de verdade neste negcio,  preciso ter vrios restaurantes, fazer evento, palestra, campanha publicitria. Ou, como ensina o grande Jol Robuchon, estampar o rosto em uma linha de congelados.

FALTA AUTOCRTICA AOS CRTICOS  Uma crtica demolidora di, mas eu a respeito se ela tem base. No Brasil, muitas vezes no  assim. Para adquirir um bom paladar, o crtico deve fazer como um atleta faz para desenvolver os msculos. Isso requer treino, repetio, esforo. Precisa ainda experimentar de tudo, viajar e saber comparar as coisas. Eu, por exemplo, gostava de azeite trufado na juventude, mas, depois que fui introduzida  trufa fresca, aquilo me lembrou gasolina e nunca mais usei. Sem parmetros, no d para julgar nada em rea nenhuma. Infelizmente, tem muito especialista por a que ignora isso.

OS TEMPOS NO PALCIO - Aprendi em minha temporada no Alvorada que a escolha do cardpio pode ter um papel relevante na prpria diplomacia. H coisas que no se podem servir, porque no esto de acordo com os costumes de um pas, e outras que fazem o convidado ficar por mais tempo  mesa. Certa vez, o primeiro-ministro ingls Tony Blair tinha exatos uma hora e quinze minutos para o almoo com o presidente Fernando Henrique. Eram tempos em que os europeus, apavorados com a doena da vaca louca, estavam em jejum de carne. Como no era um problema brasileiro, servi rosbife. Blair repetiu trs vezes. E o almoo com FHC estendeu-se por quase trs horas. Em outra ocasio, cozinhei para o prncipe Charles, que havia feito chegar ao cerimonial uma lista com mais de vinte itens que no podiam entrar no cardpio, alm de uma sugesto de menu: carne de caa com cogumelos selvagens. Soube que, at aquele dia no Alvorada, ele no tinha comido nem uma migalha de po no Brasil. Achava tudo extico e s consumia o que o chef que trouxera da Inglaterra preparava. Acabei servindo uma variao de fish & chips (peixe com batatas fritas), e o prncipe gostou tanto que at quebrou o protocolo. Pediu que eu viesse ao salo e falou: Est melhor do que o ingls. A senhora pode me fornecer a receita?.

MENU OLMPICO - H duas semanas, comeamos a fazer a base para os molhos. Os ingleses se espantaram: A senhora no vai comprar pronto?. No. Sero servidas ao todo 15.000 refeies a atletas da ginstica ao halterofilismo.  tudo muito simples, mas com adaptaes ao mundo esportivo. Frango, por exemplo, s entra o caipira, para evitar a presena de hormnios que podem aparecer nos exames antidoping. Para mim, est sendo uma experincia interessante. Os desafios do esporte tm muito a ver com os de uma cozinha. Envolvem constantes obstculos, superao de limites e dor. Quando chego em casa  noite, depois da guerra que travo nos bastidores, tudo o que eu quero  comer um bom misto-quente.


10. NEGCIOS  DIVIDIR PARA MULTIPLICAR
Empresas de compartilhamento atraem os ricos que querem pagar menos para ter um jato ou um helicptero.

     Em So Paulo, a menor distncia entre dois pontos  um helicptero. J existem 400 deles voando diariamente pelos cus da cidade, naquela que  hoje a maior frota municipal do mundo, superando a de Nova York. O Brasil  tambm o segundo maior mercado mundial de aviao executiva, com 1700 aeronaves (termo que engloba tambm os helicpteros), atrs apenas dos Estados Unidos. Com o tormento no trnsito das grandes cidades, o pesadelo dos aeroportos e tambm a falta de segurana nas ruas, quem pode foge pelos ares. Mas o luxo tem o seu preo. Um helicptero Agusta novo no sai por menos de 14 milhes de reais, sem falar nas despesas com manuteno, hangar, piloto e combustvel. Uma opo ligeiramente mais em conta para comprar um avio ou helicptero prprio  o compartilhamento. Comum nos Estados Unidos e na Europa, esse tipo de negcio se estabelece agora no Brasil, empurrado pelo vento favorvel do aumento no nmero de bilionrios e tambm de milionrios. Nos ltimos dois anos, duas empresas que oferecem esse servio abriram as portas no pas, ambas contando com o amparo financeiro de fundos de investimentos. Alm de jatos e helicpteros,  possvel tambm dividir a propriedade de iates e carros esportivos.
     No compartilhamento de bens de luxo, os clientes compram uma cota de um jato ou de um iate, por exemplo, e pagam uma parcela fixa pela manuteno, alm de arcar com as despesas adicionais para a utilizao (entre elas, combustvel e piloto). No final, os gastos saem bem mais em conta comparados aos de uma aeronave de uso exclusivo. A cota sai por um quinto do preo do helicptero (veja o quadro abaixo). Com o dinheiro que seria empregado na compra de um jato e na sua manuteno, o cliente pode adquirir uma cota de avio, uma de helicptero e outra de barco, afirma Marcus Marta, diretor comercial do Prime Fraction Club, que possui 32 clientes. Os cotistas tm direito a uma quantidade determinada de horas por ms para uso do equipamento. Em geral, precisam agendar com seis horas de antecedncia no caso dos helicpteros e 24 horas no dos avies. Mesmo que a aeronave esteja reservada, o cotista no fica na mo. A empresa fornece outro aparelho (igual ou melhor) de sua frota, numa espcie de banco de horas.
     Para o empresrio do setor imobilirio Clovis Gomes, o compartilhamento de um helicptero contribuiu para multiplicar os seus negcios. Eu fao voos sobre a regio metropolitana de So Paulo para analisar e procurar terrenos para investir, afirma Gomes. Profissionais liberais, como mdicos e advogados, tambm so adeptos do compartilhamento. Para eles,  a maneira de fazer mais consultas em diferentes cidades, sem perder tempo no trnsito e nos aeroportos. Segundo as empresas, isso  um reflexo da riqueza crescente em regies fora da rota Rio-So Paulo. Mas os clientes no usam seus aparelhos apenas para o trabalho. Nos fins de semana, o destino do helicptero acaba sendo a casa de praia.
     As companhias estimam que 80% dos seus clientes tm dinheiro suficiente para comprar o prprio avio, helicptero, barco ou carro esportivo, mas optaram pelas cotas para racionalizar as despesas. O medo dos ricos de parecerem empobrecidos perante os amigos foi, no entanto, um fator a jogar contra o compartilhamento de bens de luxo em um passado bem prximo. Sempre foi muito comum no Brasil, entre os ricos, o costume de ter um helicptero e deix-lo no jardim para exibi-lo aos amigos, diz Rogrio Andrade, presidente da Avantto, a maior empresa do setor, com 350 clientes. Penso que conseguimos contribuir para uma mudana de hbito. O mais inteligente no  esbanjar dinheiro,  us-lo da melhor maneira.
     Nos iates compartilhados, as empresas cuidam para que os itens pessoais de moblia e decorao fiquem guardados, assim como toalhas e roupas de cama. Eles s so instalados horas antes de o barco zarpar. As embarcaes maiores podem contar com um decorador e um chef de cozinha, e mesmo nos barcos mais simples existe um marinheiro responsvel por servir as refeies. Se o cliente quiser, nem precisar falar para os amigos que o barco ou o avio  compartilhado, diz Matta, do Prime. A personalizao  feita de acordo com as preferncias de quem estiver usando o equipamento. No deixa de ser uma maneira de levar uma vida de bilionrio sendo um simples milionrio. 

ECONOMIA NOS ARES
No  barato, mas com o compartilhamento fica um pouco mais em conta ter um helicptero ou um jatinho prprio (em reais)
Considerando vinte horas de uso ao ms

HELICPTERO AGUSTA POWER A109E
USO COMPARTILHADO: Preo 3 milhes cada cota. Custo mensal (Despesas com hangar, manuteno, combustvel e piloto) 100.000 por cotista.
USO EXCLUSICO: Preo 14 milhes o aparelho. Custo mensal (Despesas com hangar, manuteno, combustvel e piloto) 165.000.

AVIO PHENOM 300: 
USO COMPARTILHADO: Preo 6 milhes cada cota. Custo mensal (Despesas com hangar, manuteno, combustvel e piloto) 130.000 por cotista.
USO EXCLUSICO: Preo 18 milhes o aparelho. Custo mensal (Despesas com hangar, manuteno, combustvel e piloto) 190.000.


11. EDUCAO  PASSA RASPANDO
Uma pesquisa da Fundao Victor Civita mostra melhoras no ensino superior a distncia, mas ainda h muito por fazer.

     Os cursos universitrios a distncia costumavam ser to malvistos na academia brasileira que ganharam o apelido de supletivos de smoking. Lutava-se contra a sua regulamentao, que s se deu em 1996. A m fama dessa modalidade em que o aluno se forma praticamente sem ir  universidade  j to disseminada em pases de educao de alto nvel persiste at hoje no Brasil. Em parte, pela resistncia de uma turma aferrada  velha ideia de que ensino bom, s na sala de aula. Mas tambm pelo desconhecimento que ainda paira sobre esses cursos. Uma nova pesquisa, conduzida pela Fundao Victor Civita, retirou um conjunto deles dessa zona de sombra, produzindo um estudo que rastreou as fragilidades e o que d certo e pode ser exemplar para os demais. Durante cinco meses, os especialistas analisaram os cursos de oito faculdades (pblicas e particulares) que oferecem graduao a distncia em pedagogia, a rea que, de longe, atrai mais alunos  quase 300.000. O retrato que emerge da ajuda a desconstruir a viso de que esses cursos fornecem educao superior de segunda classe. Em alguns casos, eles j chegam a ombrear com tradicionais ilhas de excelncia. Mas, no geral, resta muito que avanar.
      luz das boas experincias, no h dvida sobre os caminhos que elevam o nvel. Os melhores cursos souberam implementar o mais bsico. No d para deixar o aluno por si s o tempo inteiro.  preciso fazer uso constante da tecnologia para conect-lo ao professor, alerta a doutora em educao Elizabeth Almeida, coordenadora da pesquisa. Isso significa, por exemplo, usar a internet para envolver os estudantes em debates liderados por um mestre que, se bem treinado, pode alar a turma a um novo patamar. No panteo das boas graduaes a distncia, chats, fruns e trabalhos colaborativos so constantes, o que ainda no  to comum para a maioria. Outra fragilidade brasileira diz respeito ao tutor, profissional que deve tirar as dvidas dos estudantes e gui-los nos desafios intelectuais. Muitos aqui no esto preparados para a funo, como enfatiza a pesquisa. Os casos bem-sucedidos indicam ainda a relevncia de o aluno no ir  faculdade apenas para fazer prova ou assistir a aulas espordicas nas telessalas, como  usual. Ele precisa ser tambm incentivado a visitar  vontade a biblioteca e os laboratrios.
     No Brasil, os cursos de graduao a distncia eram oferecidos por instituies pequenas e pouco conhecidas at uma dcada atrs. Hoje, esparramaram-se pelas grandes, j atendem 930.000 estudantes e vo absorver quase um tero dos universitrios at 2015  proporo semelhante  dos pases da OCDE. So nmeros que reforam a premncia da busca pela excelncia. Nos cursos de pedagogia avaliados, foram detectados os mesmos problemas que tm feito desta uma das reas de pior desempenho em todo o ensino superior brasileiro. Sobram teorias de pouco ou nenhum uso e falta falar sobre o que e como ensinar. Quem resolver essa equao  na sala de aula ou a distncia  estar dando o decisivo passo para superar a mediocridade.

EXPLOSO DE MATRCULAS
Na ltima dcada, disparou o nmero de estudantes brasileiros no ensino superior a distncia
2000: 5000
Hoje: 930.000
2015 (projeo): 1,7 milho
Fontes: MEC e consultoria Hoper

GABRIELA ROMERO


12. DIETA  AS CHIAS DE CHARME
As sementes cultivadas na era pr-colombiana so um dos modismos alimentares
do momento. H tambm o edamame, o farro, a dieta ayurvdica...
MARIANA AMARO

MARIANA AMARO
     Voc j incorporou a linhaa ao caf da manh e at experimentou algum prato com quinoa? Pois corra para se atualizar com os novos modismos dietticos, os alimentos ou regimes inteiros que parecem surgir do nada, embora alguns com muitos milhares de anos de uso histrico, e entram no cardpio dos que no resistem  possibilidade de comer para ficar jovem, saudvel e magro. Ou seja, todos ns vamos acabar experimentando a semente de chia, inclusive os que no conseguem abrir mo da picanha com gordurinha. A chia vem de um tipo de erva parecido com a slvia, nativa de regies onde hoje ficam reas do Mxico e da Guatemala em que antes da chegada dos conquistadores espanhis se sucederam civilizaes gloriosas, misteriosas e eventualmente autodestrutivas. Mas vamos ficar no perfil nutricional da chia: tem quase o dobro de protenas da parente nativa americana quinoa,  mais rica em substncias antioxidantes do que a badalada blueberry, vem cheinha de mega 3 e  pouco calrica  apenas 60 calorias por colher. Ela tambm tem muita fibra, material que absorve gua no estmago, se expande e promove uma sensao da saciedade, explica o nutrlogo Daniel Magnoni, do Hospital do Corao de So Paulo. Por causa dessa sensao, come-se menos; mas no d para creditar  chia o milagre do emagrecimento, acrescenta, com a ponta de exasperao dos profissionais do ramo diante da eterna busca por alimentos milagrosos.
     Mas a sementezinha conquistou os modernos e j chegou ao cardpio de restaurantes de esprito vanguardista como o paulistano Marakuthai, tocado pela chef Renata Vanzetto, de apenas 23 anos. Gosto mesmo nem d para sentir, reconhece Renata, conquistada pelo fator crocncia e, claro, pelo modismo. A chef salpica as sementes de chia em saladas e pes. No restaurante carioca Celeiro, marco zero da combinao de comidas saudveis e pessoas bonitas, os pratos com chia fizeram tanto sucesso que quase saram do cardpio. Depois que entrou na moda, o quilo passou de 40 para 80 reais, explica a proprietria, Rosa Herz. Em termos nutricionais, quinoa, linhaa e chia so bem parecidas, mas cada uma tem um apelo especial. O da linhaa, ou semente de linho,  a lignana, substncia que tem um papel na produo de hormnios e nas barreiras de resistncia do sistema imunolgico. A andina quinoa  uma parente mais nutritiva do arroz, o que permite que entre como substituta em risotos. No caso, quinotos.
     O mais importante alimento que saiu do continente americano para o mundo, a batata, levou quase dois sculos para ser aceito, adaptado e cultivado na Europa, onde teve efeitos espetaculares sobre o aumento populacional. Hoje, evidentemente, as novidades alimentares se sucedem com muito mais rapidez. Algum ainda se lembra da tristemente chamada rao humana? Todo mundo ainda est experimentando ou j passou a onda do leo de coco, consumido ao natural ou em plulas? Registre-se que o leo do momento  o de abacate. E que no soa estranho pedir num restaurante badalado um prato com edamame ou farro. Vindo da culinria japonesa, o edamame, gro da soja verde com valor nutricional similar ao do feijo, j cruzou as fronteiras culinrias e aparece em pratos modernos como o ovo perfeito do restaurante paulistano Miya  o ovo usa a tcnica moderna da coco prolongada para deixar gema e clara com a textura parecida. O farro tem carga histrica mais poderosa: era um tipo de trigo usado como rao bsica dos soldados romanos, que faziam uma espcie de polenta com ele. Por ter uma colheita mais trabalhosa, foi substitudo pelo trigo convencional, mas sobreviveu em regies da Itlia e foi redescoberto por restaurantes moderninhos como o Spot, em So Paulo.
     Tudo isso faz parte do meu cardpio h anos, diz a estudante de nutrio Bela Gil, filha do cantor Gilberto Gil. Tambm como muita bardana, raiz de ltus, paino e amaranto. Descobrir e criar receitas naturebas rendeu-lhe um trabalho em Nova York, onde mora h seis anos.
     Dou aulas de culinria em casa. Ensino a fazer pratos como risoto integral com alga e salada de quinoa vermelha com abbora, diz. Os pais dela, Gil e Flora, que emagreceu 10 quilos com as receitas da filha, so seguidores xiitas da macrobitica, uma das dietas precursoras dos orientalismos culinrios. Aos 15 anos, Bela comeou a praticar ioga e se interessou pelos preceitos da alimentao ayurvdica, cujas razes remontam aos primrdios da civilizao indiana, misturando conhecimentos tradicionais e crenas em foras ou energias no reconhecidas pela cincia. O pilar central dessa dieta  a diviso das pessoas em trs grupos, cada qual com necessidades alimentares diferentes. A culinria indiana tem ingredientes reconhecidamente positivos. O curry e a crcuma, alguns de seus temperos clssicos, ajudam a prevenir alguns cnceres, como o de intestino, diz Salete Brito, nutricionista do Hospital das Clnicas da Unicamp. Em compensao, a ndia  uma das campes de cnceres de boca, laringe e estmago devido ao consumo do paan, uma espcie de embrulhinho que leva sementes de um tipo de palmeira, tabaco e especiarias, mastigado como se fosse chiclete. Os seguidores da alimentao ayurvdica no o consomem. Bela j perdeu a conta das vezes em que foi parada em alfndegas por levar razes e algas na mala. No consigo ficar sem: mas no  nada doentio, conta. A obsesso pela alimentao saudvel  considerada uma doena, a ortorexia, e leva a distores nutricionais e psicolgicas. Mas uma pitadinha de chia num risoto de quinoa enfeitado com edamame definitivamente mal no faz. Ele pode ser acompanhado por choclo, uma das 35 variedades do milho peruano. E para contar a histria do milho peruano...

DE VOLTA S ORIGENS
Ele  o chef de um estrelado restaurante em Copenhague cuja culinria mistura a francesa tradicional e a nrdica contempornea. Antes de chegar ao trabalho, porm, o tatuado Thomas Rode Andersen, 44, d uma mergulhadinha no mar gelado da Dinamarca para pescar o caf da manh: peixes ingeridos crus. Andersen  adepto de um dos mais bizarros modismos alimentares, a dieta paleo  uma referncia  era paleoltica , que prega o consumo de alimentos iguais aos ingeridos, em parte presumidamente, na poca dos homens das cavernas. Carne, ovos, peixes, verduras, oleaginosas, mas e peras, sim. Acar, lcool, comidas processadas, batatas e gros, nem pensar. Na civilizadssima Dinamarca, Andersen faz um tipo de ginstica diria, de duas horas, que replica prticas fsicas ancestrais como corrida com piques rpidos, que imitam a busca de presas, e pesca embaixo do gelo. Os efeitos abdominais no so desprezveis. Os adeptos mais extremos da dieta doam sangue regularmente para reproduzir os ferimentos sofridos por seus remotos antepassados nas caadas. Andersen virou paleo por influncia de uma namorada. Foi tambm o amor que transformou o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, cuja mulher  uma pediatra com inclinaes vegetarianas. Por sugesto dela, Zuck come pouca carne e apenas aquela cuja procedncia conhece bem. To bem a ponto de ter sido ele o responsvel direto pela morte do bicho. Zuckerberg j matou lagosta, porco e at cabra. Porm, uma recente visita ao McDonalds mostrou que ele no est assim to brucutu. S falta uma espuminha por cima.


13. TECNOLOGIA  O PEQUENO DESAFIA O GRANDO
Leve, menor e mais barato, o Nexus 7, do Google, larga na frente como favorito a encarar o iPad. A Apple j pensa numa verso de seu tablet com quase metade do tamanho
FILIPE VILICIC

     A Apple fundou a indstria de tablets com o iPad, dois anos atrs, e at hoje  como domnio de 68% do mercado  no tinha enfrentado um concorrente  altura. Os sinais agora so de que o jogo comea a virar. Colocado  venda trs semanas atrs nos Estados Unidos, o Nexus 7, o primeiro tablet projetado pelo Google, esgotou-se nas lojas. Os principais atrativos dele so, por assim dizer, o que tem a menos que o concorrente:  menor, mais leve e custa metade do preo. Mais do que uma simples mudana de detalhes, parece que veio para estabelecer um novo padro de aparelho. O tamanho reduzido permite que o Nexus 7 seja levado no bolso de trs da cala ou segurado com uma mo. Isso no teria valor se a tela de 7 polegadas em alta resoluo, bem menor que a de 9,7 polegadas do iPad, no fosse mais agradvel para leitura e para games. Sabe-se que o golpe foi sentido porque o adversrio o acusou. A Apple ressuscitou um projeto de lanar uma verso com quase metade do tamanho do iPad atual, que deve estar nas lojas at o fim do ano.
     H quatro anos que o Google e a Apple disputam compradores de tablets e smartphones. A briga comeou quando o Google lanou o Android, seu sistema operacional para dispositivos mveis. Ele bate de frente com o iOS, programa do iPhone e do iPad. O combate  acirrado, com ligeira vantagem para o Google nos celulares e enorme domnio da Apple nos tablets. As duas empresas so as nicas protagonistas desse jogo. Dominam 79% das vendas de smartphones: 56% para o Android e 23% para o iPhone. Nos tablets, o iPad preferido por 68% dos consumidores e 29% ficam com o Android. Enquanto a disputa corre, pouco se importam com os que tentam entrar nela. O tablet PlayBook, da BlackBerry, encalhou com menos de 1% do total. Os sistemas operacionais criados pela Microsoft so utilizados em menos de 2% dos smartphones e tablets. A parceria dela com a Nokia em celulares foi um fiasco. Desde o ano passado, a fatia da Nokia caiu de 27% para 8%, acumulando perdas de 1 bilho de dlares. Aps diversos fracassos, a Microsoft tenta mais uma vez: vai lanar em outubro o seu tablete, o Surface, que ser maior que o iPad e vir com teclado analgico.
     At agora, o Google produzia seus equipamentos em parceria com fabricantes como Samsung e LG. Numa nova estratgia para enfrentar a Apple, a empresa decidiu assumir todo o projeto da linha Nexus. Os fabricantes entram s com a mo de obra bruta. Em resposta ao sucesso do Nexus 7, a Apple reacendeu o plano de lanar um tablet menor. O primeiro esboo do iPad era pequeno, mas no agradou a Steve Jobs, fundador da empresa, morto no ano passado. A Apple  conhecida por adaptar sua opinio a novos cenrios, qualidade indispensvel aos que querem sobreviver no Vale do Silcio. O prximo iPhone deve ter tela maior para seguir a tendncia dos smartphones, puxada pelo Google. O iPod passou por situao similar  do iPad. Aps seu lanamento, em 2001, concorrentes criaram tocadores menores. A soluo da Apple foi fabricar verses diminutas do iPod. Entre os tablets, ocorre reformulao parecida. Disse a VEJA o consultor Patrick Moorhead, presidente da Moor Insights & Strategy: Os tablets se dividiram em dois: pequenos e grandes. Grosso modo, os pequenos so mais para lazer. Quem ganha com a disputa entre Apple e Google  o consumidor, que v crescer as opes de tablet nas prateleiras, em sentido contrrio ao dos preos.

NEXUS 7 (previso de lanamento no Brasil: at o fim do ano)
Marca: Google
Preo: 199 a 249 (EUA)
Peso: 340 gramas
Capacidade de armazenamento: 8 ou 16 gigabytes

iPad
Marca: Apple
Preo: 499 a 829 (EUA); 1549 1299 reais (Brasil)
Peso: 660 gramas
Capacidade de armazenamento: 16, 32 ou 64 gigabytes

O DONO DA IDIA
Mestre em cincias da computao pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o mineiro Hugo Barra, de 35 anos,  diretor mundial do Android, o mais popular sistema operacional de smartphones e tablets. Coube a ele a misso de coordenar o desenvolvimento do Nexus 7, o tablet do Google. Nesta entrevista, ele fala sobre sua criao.

Por que o senhor acha que um tablet menor  melhor? 
Os aparelhos com tela de 9,7 polegadas, como o iPad, so desajeitados para ser usados no metr, em avies e no quarto das pessoas. Se continuam a ser utilizados,  porque no havia uma opo de qualidade. Todo mundo sempre quis um tablet que se possa segurar com uma s mo, confortavelmente. O Nexus 7, que cabe no bolso de trs da cala, soluciona o impasse. E leve o suficiente para ler e para jogar games deitado na cama. Quando se tenta fazer isso com um tablet de tela grande, ele passa em pouco tempo a pesar como um tijolo.

Outros tablets pequenos no so sucesso. Por qu? 
Faltava at agora combinar em um nico aparelho trs componentes essenciais: tela menor, processador rpido e boa oferta de aplicativos. O Nexus 7 tem quatro processadores e  rico em programas.

Ser que a Apple finalmente se sente ameaada pela concorrncia? 
O sucesso de vendas do nosso tablet demonstra que nossa viso tecnolgica est correta. Naturalmente, outros fabricantes vo nos seguir. Ao contrrio do mercado de smartphones, o de tablets  novo, ainda est em construo. Reviravoltas so saudveis e esperadas.

Que futuro o senhor v para os tablets maiores? 
Acredito que eles passam agora a concorrer com laptops. So um bom equipamento para um executivo que viaja muito e quer um dispositivo de trabalho mais porttil do que um notebook.

Qual o prximo grande passo da tecnologia? 
 torn-la acessvel de qualquer lugar, mas praticamente invisvel. Um exemplo so os culos experimentais do Google, cujas lentes exibem informaes similares s de uma tela de tablet. Estaro sempre conosco, mas s sero ativados quando for preciso. A nova gerao de softwares elimina at a necessidade de acionar manualmente os aparelhos. Eles ligam automaticamente e reconhecem, de acordo com as circunstncias, como podem nos ajudar. O Google Now, do Jelly Bean (nova verso do sistema operacional Android), segue essa direo. O software reconhece o padro de comportamento do usurio, identifica sua localizao e o surpreende com sugestes adequadas. Em breve, quando algum entrar na cozinha, seu tablet lhe indicar, sem perguntar, a receita de um prato.

O Nexus 7 foi projetado com base no Jelly Bean. Softwares passaram a ditar hardwares, em sentido inverso ao da era pr-tablet? 
Antes se criava o computador em um canto e os programas em outro. Hoje, o processo  integrado. Os fabricantes inventam os aparelhos com base no que o software  capaz de realizar. Dizemos: Temos esse programa e s falta vocs projetarem um tablet com tela flexvel.

COM REPORTAGEM DE FERNANDA ALLEGRETTI

